REPORTAGEM: Milhões de Festa, a prova de que os festivais não se medem aos palmos. (dia 1)

É certo que já sabíamos da existência de um certo lugar chamado Barcelos. Fosse pelo facto da cidade albergar o maior galinheiro do país – e um dos seus maiores símbolos culturais – ou fosse pelas difíceis deslocações ao terreno do sempre temível Gil Vicente. Mas a verdade é que esta tendência recente que tornou possível apelidar Barcelos como uma espécie de Manchester portuguesa, não tinha ainda sido possível testemunhar. O festival Milhões de Festa vem de facto provar o valor da região não só na venda do seu galo, mas também no peso musical que vai conquistando.
Acreditamos que os festivais não se medem aos palmos e o Milhões não perde uma oportunidade de provar isso mesmo. Desde filas, stresses, confusões, passando pelo pó ou até os assaltos e chinadas do costume, o Milhões arranja maneira de arrumar tudo isso a um canto. É dia 20 à tarde e ainda há espaço para montar a tenda à sombrinha, dá para tomar uma confortável banhoca de água morna, pedir uma imperial e entrar definitivamente em modo Milhões de Festa. Depois de 300km de viagem, sabe bem sentir que em Barcelos ‘tá-se bem.
Da nossa parte reinou uma certa ignorância perante grande parte do cartaz. Hoje até acabamos por dar graças a isso, mas já lá vamos. Foram os portugueses La La La Resonance os primeiros a abraçar a melancolia do fim de tarde à beira Cávado. Tudo no quinteto português parece funcionar de forma muito tímida. Os longos instrumentais enlaçam em si um lado experimental muito contido, dando lugar a uma suavidade jazzy, que resulta numa mansidão tremenda que parece levar cada tema a lado nenhum. Passando em revista a sua discografia e perante um recinto ainda por compor, a banda cumpriu a sua missão, ainda que não nos tenha sido, para nós, a mais memorável das exibições.
Depois de uma pausa para uma sande de porco no espeto, começamos a ver germinar um pouco por todo o recinto, a já esperada fauna metaleiro-hipster. Quem faz os festivais são as pessoas e no caso do Milhões, este é habitado por esta espécie particular que encontra em Barcelos uma porto (musicalmente) seguro.
Seguiram-se no palco Milhões, os Sensible Soccers. Somos assumidos fãs da banda e guardávamos algumas expectativas para perceber se seria esta maltinha capaz de executar na perfeição o castigo final. Da marca de 11 metros, voltaram a não desiludir. Entre os temas que marcam presença no EP de estreia da banda, Fernanda soou especialmente bem. Os Sensible Soccers apresentam-se ao vivo mais explosivos, levantando ondas bem maiores na calma maresia que experienciamos em estúdio. Estreando alguns temas novos, a passagem da banda pelo Milhões resultou numa vitória contundente. Esperamos ansiosamente observar futuras exibições deste time sendo que se impõe, mais do que nunca, o lançamento de um longa-duração.
Depois de uma passagem fugaz pelo palco Vice, onde escutámos os portugueses League, sentimos que a pop alternativa portuguesa está em boas mãos. Entre devaneios psicadélicos à la MGMT e ritmos dançantes a pedir um abanar de anca, não restam dúvidas que em Paredes de Coura, estes senhores vão requerer outro tipo de atenção.
Fechado mais um capítulo no palco secundário, todos os caminhos iam dar inevitavelmente ao palco Milhões. Podia até haver quem quisesse uma bifana ou até mais uma cerveja, mas não houve como escapar à portentosa obra que os Baroness começavam a esculpir em palco. A pujante Take My Bones Away abriu o certame. Para um débil fã de sonoridades mais pesadas é fácil sentir-se que muitas vezes, nestes casos, se pratica mais body building do que outra coisa qualquer. Com os Baroness não se trata de modo algum de meter mais peso na máquina. Tratou-se de uma prestação sem merdas, sem piedade alguma. Os Baroness são um nome bastante considerável dentro do género e demonstraram com muita classe que esse estatuto merece um regresso a um palco de outras dimensões. Swollen and Halo foi das nossas favoritas. O quarteto saiu visivelmente satisfeito e Barcelos, mais do que convencida, aplaudiu até ao cair do pano.
Com a noite chegou um certo frescote obrigando todo o povo a agasalhar-se seriamente. Pode ter sido do clima mas a prestação de Holy Other pareceu igualmente fria. O músico que vive ainda no anonimato, apresenta-se em palco com um véu que lhe tapa a cara. De certa forma, sentimos que isso lhe retira alguma alma mas não impede que este vá cumprindo a sua função. De notar a opinião de dois seguranças: “Não gosto disto. É chillout”. Chillout ou não, é certo que a electrónica de vanguarda se fez escutar pela primeira vez no Milhões, recriando um universo só alcançável em sonhos, numa toada muito gloomy que proporcionou uma erupção de danças no mínimo excêntricas.
O que se seguiu é algo ainda hoje difícil de concretizar em palavras. É certo que já conhecíamos os Throes + The Shine – somos fãs do álbum de estreia – mas a verdade é que no Milhões vivemos algo transversalmente diverso. Esta feliz fusão que resultou em Rockuduro, transforma-se em palco numa festa celebração que roça o transcendente. Se a metade Throes se encarrega do “costume”, a metade The Shine trata de declamar poesia de rima fácil: é à base do kuiar, do dançar, do cantar, do saltar e, no fim, do triunfar. Ninguém terá ficado indiferente à força sobre-humana que os MC’s André e Diron seriam capazes de carburar noite dentro. O melhor que podemos mesmo dizer é que, se tiverem hipótese, não deixem de ver Throes + The Shine.
Foi ainda a cair na realidade que, após o concerto da noite, abandonámos o recinto. Parece que o Milhões da Festa requer também milhões de fibra. E chegar à tenda sabe sempre bem. O melhor ainda estava para vir. 

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